Em discussão: Mobilidade
Num mundo aparentemente condenado aos engarrafamentos, quem precisa realmente se mover? As pessoas ou os automóveis?
Transporte sustentável, planejamento urbano, novas fontes de energia, atitudes individuais inovadoras: maneiras de repensar a mobilidade no século 21 para colocar o homem – e não os veículos – como prioridade.
Uma metrópole qualquer, hora do rush. Olhe em volta. Você está parado. Não importa onde: dentro de seu carro, de pé num ônibus, esperando o metrô ou um trem na plataforma. Tudo à volta parece estar parado. Engarrafamentos, horários que não são cumpridos, excesso de veículos e de gente. Tudo conspira para que não exista movimento aparente à sua volta.
Olhe de novo. Tudo se move, na verdade. Olhe de novo e você verá pessoas andando, bicicletas e motocicletas esgueirando-se por entre os carros e ônibus, aviões e helicópteros no céu. Até a Terra está girando, a uma velocidade de mais de mil km/h em torno do próprio eixo. Esqueça os veículos: o que se move é a vida, as pessoas. Se há vida, há movimento, e não há engarrafamento que desminta isso. E todo esse conjunto complexo de objetos (carros, motos, trens...) e estruturas (ferrovias, rodovias, ciclovias, calçadas...), hoje visto como um dos mais intransponíveis dilemas do mundo moderno, está sendo repensado em favor da vida. A mobilidade precisa trabalhar a nosso favor e não contra nós.
O primeiro ônibus urbano surgiu em 1662, na cidade de Paris. Era uma carruagem puxada por sete cavalos, com capacidade para até oito passageiros. Não deu certo; em 1675 já estava fora de circulação. Provavelmente nascia ali também o primeiro dos problemas da mobilidade urbana. Hoje a situação se complicou ainda mais, com o aumento contínuo dos congestionamentos nas grandes cidades, os acidentes, a poluição atmosférica e sonora, o consumo ineficiente de energia, tudo isso gerando problemas sociais, econômicos e ambientais. O Conselho Mundial de Energia avisa: os meios de transporte atuais impactam o meio ambiente (são responsáveis por até 25% do consumo energético e das emissões de gases do efeito estufa), desperdiçam tempo e dinheiro. Enquanto isso, nós, as pessoas – que deveriam ser a razão e o objeto de toda a mobilidade – ficamos... parados.
“Quem precisa de mobilidade são as pessoas, não os veículos”, diagnostica Ronaldo Balassiano, professor e pesquisador de engenharia de transportes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autor de mais de 100 estudos científicos sobre mobilidade e meios de transporte e uma das referências absolutas brasileiras no tema, Balassiano tem pressa. Dispara dados, críticas, exemplos e sugestões como um trem-bala. E seu discurso sempre prioriza o humano, não o mecânico ou o estrutural. “Imagine que só em 2010 tivemos 3,5 milhões de novos carros produzidos no Brasil. E que essa produção não é acompanhada por uma política de circulação ou de estacionamento. O resultado? O cara pega o carro até para ir ali à esquina comprar pão. É claro que vai atrapalhar tudo.”
Carlos Vinicius Massa, coordenador do Programa Tecnológico de Inovação em Combustíveis e Lubrificantes (Inova) da Petrobras, resume: “As soluções para a mobilidade urbana passam por um bom planejamento do sistema viário, pela manutenção das vias e estradas e por uma integração eficiente entre os transportes coletivos.” Na verdade, apenas recentemente o foco da questão saiu do planejamento dos meios de transporte e do tráfego para um pensamento mais amplo sobre a mobilidade. Com o número de veículos motorizados no mundo multiplicando-se por cinco entre 1950 e 1980, a prioridade no pós-Segunda Guerra Mundial era manter os carros circulando bem. “Isso tende a priorizar rodovias de alta velocidade e alta capacidade de veículos. E resulta num sistema de transporte e de ocupação territorial dependentes do automóvel”, explica o engenheiro canadense Todd Alexander Litman, membro do Institute of Transportation Engineers (EUA) e autor do estudo “Measuring Transportation: Traffic, Mobility and Accessibility” (“Mensurando o transporte: tráfego, mobilidade e acessibilidade”). “É preciso pensar nos usuários de transporte como pessoas que buscam acesso a lugares, serviços ou bens. E não na mobilidade como um fim em si mesmo.”
É nesse caminho que parecem seguir os mais importantes estudos e experiências realizados no campo da mobilidade, um termo que hoje obrigatoriamente rima com sustentabilidade. A tônica é a procura por projetos inovadores capazes de gerenciar as demandas de movimentação e de acessibilidade cada vez mais altas nas grandes cidades. Estimular o uso de transportes “mais verdes” (meios de transportes públicos ou de baixa emissão de dióxido de carbono e gases tóxicos), repensar o planejamento urbano de modo a diminuir os tempos de deslocamento e incentivar os meios de locomoção não motorizados (reduzindo os impactos ambiental, econômico e social): eis a(s) rota(s).
Entretanto, ônibus e automóveis ainda são (e serão, por vários anos) os principais meios de transporte nas cidades. Tendo isso em mente, soluções paralelas estão sendo pensadas para lidar da melhor forma possível com essa realidade. “A Petrobras garante o fornecimento de combustíveis de qualidade – que mantêm os veículos circulando em condições ideais de funcionamento e poluem menos a atmosfera”, diz Carlos Massa. “Contribuímos para a mobilidade urbana ao produzir combustíveis perfeitamente adequados às novas tecnologias de motores. Com isso, diminuímos o risco de panes nos veículos – o que sempre atrapalha o trânsito. Além disso, já nos preparamos para o futuro, quando os veículos híbridos ou movidos por energias renováveis dividirão espaço com os carros movidos a gasolina.”
Por: Marco Antônio Barbosa
Fotos: Max Moure
Tratamento de Imagem: Marc Recco
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