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Gilberto Gil

gilberto gil (foto: felipe varanda)Inovação, tecnologia, cultura digital, criatividade e inspiração em uma conversa com o brasileiro que saiu do interior da Bahia e ganhou o mundo com sua música.

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Gilberto Gil é um músico baiano de 69 anos que não se contenta com a reinvenção artística: participa de movimentos sociais e políticos, debate novas formas de entender e fomentar a cultura e é ávido desbravador das possibilidades abertas pela era da comunicação digital, entre elas o software livre e a flexibilização dos direitos autorais.

Figura chave na música brasileira há quase 50 anos, Gilberto Passos Gil Moreira, ou simplesmente Gil, como costuma ser chamado, projetou-se no cenário brasileiro com o advento do Tropicalismo, movimento cultural do qual participou no fim da década de 60 e que promoveu uma modernização radical da cultura pop no país, mesclando vanguardismo e manifestações da tradição popular. Desde então, não parou mais, transformando-se em um dos compositores mais reverenciados e regravados da Música Popular Brasileira (MPB). Ao longo dos anos, veio “aproveitando a vazante da infomaré” (como ele mesmo cantou em 1994, na música “Pela Internet”), com uma atitude sempre receptiva à novidade – seja ela artística, cultural ou científica. Nos anos 90, quando pouca gente no Brasil entendia o que a comunicação digital representava, Gil já falava no assunto. Consagrado na música, decidiu juntar política e arte, um envolvimento que culminou com sua passagem de cinco anos pelo Ministério da Cultura, o que deu visibilidade inédita à pasta e aos debates em torno da produção e da difusão cultural.

Esse artista, que sempre esteve ligado à tecnologia e à inovação (no seu álbum de estreia, de 1967, já cantava a exploração espacial em “Lunik 9”), recebeu a Petrobras Magazine em seu estúdio, no bairro da Gávea, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, para falar sobre os dois assuntos. Sem perder esses temas de vista, também discorreu sobre inspiração, imaginação, composição, criação colaborativa – em uma conversa que começou com a cultura digital contemporânea e acabou voltando para o interior da Bahia, descobrindo a gênese do interesse de Gil pelo novo, pelo moderno, pela vanguarda.

 

gilberto gil - violão (foto: felipe varanda)1_ O tema principal deste número da revista é a inovação aberta. O que o assunto representa para você?

Gilberto Gil: É um tema que está entre as várias questões do open source... códigos abertos, software livre, mash-up, mistura... As exigências que a contemporaneidade tem feito à gestão do conhecimento. Como se gerencia o conhecimento hoje? As novas tecnologias, as agilidades. E a inovação aberta é uma delas. A inovação deve ficar em ambientes fechados ou ir para ambientes abertos?

 

2_ É possível imaginar um tipo de colaboração similar dentro da criação artística – como, por exemplo, a construção coletiva que é feita no jazz? Todos criando juntos em busca de uma solução – nesse caso, musical?

Gilberto Gil: Se você pensa nas colaborações no mundo do jazz, da música experimental, mesmo na música pop, existem experimentos sucessivos, alguns já se transformando em tecnologias aplicadas ao mundo do entretenimento, do registro, da gravação, do negócio da música. Outros campos, como a inovação tecnológica no ambiente das empresas, já vêm se beneficiando de experiências similares que vêm acontecendo no mundo da música.

 

3_ Como isso funciona no seu processo criativo? Como costuma lidar com interferências na criação?

Gilberto Gil: Dando um exemplo: a confecção dos repertórios dos shows. Quando estou sozinho, numa apresentação solo, todo o processo criativo fica por minha própria conta. Minha voz, meu violão etc. Se você acrescenta mais um músico, a participação dele se torna fundamental. A criação dos arranjos, a “arte-finalização” da canção já fica a cargo de nós dois. Se for com a banda com que eu trabalho, cinco ou seis músicos, nós compartilhamos a criação, como a música vai ser apresentada ao público. Isso é resultado de criação coletiva. O baixista diz assim, o tecladista diz assado, o saxofonista diz “olha aqui...” E no final juntam-se as ideias e temos um resultado compartilhado.

 

4_ Sua obra é sempre aberta ou existe um momento de finalização?

Gilberto Gil: Há finalizações parciais. Chega-se a um formato definido para aquele momento. Tem uma introdução, uma primeira parte, um solo, um arremate. E assim nós a apresentamos no palco. Mas aí se abre uma nova oportunidade, começa-se de novo o trabalho de criação. Modificações na linha do baixo, no violão, na voz, no jeito de apresentar a melodia, na emissão das palavras, na letra... A obra permanece semiaberta. Às vezes temos uma obra fechada, um arranjo definitivo, que fica naquele formato em todas as apresentações. Mas é raro.

 

5_ Uma das fases mais difíceis dos projetos de inovação aberta é a implementação. Ou seja, todo o diálogo e a troca acontecem num processo colaborativo, mas o produto final pode acabar se perdendo no caminho. Com a sua experiência musical, como é possível implementar essas inovações de forma que elas não se percam?

Gilberto Gil: Se falamos de outros campos, de matéria-prima mais “dura” – literatura, cinema, dramaturgia... – podemos até ter essa noção mais rígida de formato final para eliminar o risco de entropia, de uma perda por excesso de improvisação. No caso da música, esse risco é menor porque a música é mais plástica. É mais como o próprio cérebro, tem uma capacidade muito grande de reprocessamento para criar novas significações... Claro que na música popular, nos formatos mais rígidos, radiofônicos, isso acontece. Como num livro, ou num texto teatral, nos quais a rigidez é mais necessária. Mas no jazz, na música de improvisação, na música instantânea, esse medo da entropia é muito pequeno. Podem-se correr riscos muito grandes, reconstruir trechos inteiros e aquilo ainda vai ter coerência. Basta ver as composições do free jazz, que nem têm formato inicial!

 

gil visao6_ Dentro da classe artística brasileira, você foi um entusiasta pioneiro das novas tecnologias. Primeiro, lançou a faixa “Pela Internet”. Depois, todo o álbum Banda Larga Cordel foi lançado pela rede. Como foram essas experiências? O que isso acrescentou ao seu trabalho?

Gilberto Gil: Trazer computadores, sintetizadores, máquinas de ritmo, deu uma liberdade que resulta mesmo em novas formas, inusitadas até. A utilização dessas tecnologias múltiplas, que se cruzam, criou possibilidades surpreendentes. No palco você já tem o conceito do aberto. Há alguns dias, no Nordeste, tocávamos a música “Vamos Fugir” e o baixista gravou sua linha inicial de baixo com um gravadorzinho digital: (cantarola, imitando o som do baixo) “dumdumdumdumdum...” E na hora do show ele tocou essa gravação e saiu variando por cima dela, improvisando com aquela gravação. São possibilidades que se desdobram a partir da tecnologia.

 

 

7_ Quando falamos de cibercultura, que outros assuntos você considera que deveriam estar em debate na sociedade hoje?

Gilberto Gil: Não dá para dizer: “A cultura cibernética deveria ser usada por tais e tais interesses da criação humana”. Já está sendo usada. Não há campo da criação onde essas novas tecnologias não estejam prestando serviços novos. As medicinas, as engenharias, as arquiteturas, as artes gráficas, musicais, as ciências... A decifração do código genético não seria possível sem os bits e bytes. Tudo que é resultante da inteligência humana conta com a colaboração decisiva do processo cibernético. Aplicativos variados para diversos campos do interesse humano, da atividade intelectual e criativa. Vai da medicina ao futebol (risos). Quando você discute sobre colocar um computador para definir se o jogador estava ou não em impedimento, se a bola entrou no gol ou não... Enfim, vai daí até onde você quiser imaginar, a música, a criatividade, a poesia, as extensões das subjetividades todas.

 

8_ Você também divulgou bastante o conceito Creative Commons no Brasil e no mundo. Até que ponto podemos falar sobre a flexibilização de direitos autorais? Consegue ver essa discussão ampliada para outros ramos, fora do meio artístico – como, por exemplo, no ramo de patentes e invenções?

Gilberto Gil: As licenças do Creative Commons já estão na casa das centenas de milhões. Recentemente lançaram o Science Commons para o campo das pesquisas científicas, na linha da inovação aberta. Eles estão trabalhando a partir da constatação de que não é possível mais o conhecimento fechado, sob pena do atraso definitivo. Para a ciência, para as artes, para as aplicações tecnológicas de todos os campos... para tudo é preciso haver commons. Foi assim que se deu a condição contemporânea: trocas múltiplas em todos os sentidos. Vai dos textos literários, passando pelos trabalhos acadêmicos, trocas artísticas... E não há só um modelo, há uma série de outros licenciamentos abertos. O governo da Inglaterra tem um licenciamento próprio, outras instituições também têm.

 

9_ Como avalia a repercussão de “Oslodum”, a canção que você lançou com direitos totalmente liberados, via Creative Commons?

Gilberto Gil: Na música você tem quatro ou cinco tipos de licença, desde aquele que diz “todos os direitos reservados”, seguindo o modelo tradicional, até o que anuncia “todos os direitos liberados”, e entre os dois extremos tem-se direitos parcialmente liberados, criando possibilidades para os mash-ups, os usos parciais de fragmentos, a reaplicação de partes de obras musicais e literárias... “Oslodum” eu escolhi para deixar totalmente liberada, para reutilização de trechos da canção ou da música inteira. Não tenho controle sobre isso, como isso vem sendo usado. Possivelmente há alguns produtos por aí feitos a partir de trechos da canção, pelo mundo afora.

 

10_ Quais seriam os caminhos para ampliar ainda mais a difusão da produção cultural brasileira numa escala global?

Gilberto Gil: Uma das saídas para a expansão da presença cultural brasileira é exatamente o mundo aberto, o software livre, licenciamento mais amplo. Na moda, no videogame, na música, na ciência, nas investigações acadêmicas, na criação de ciência aplicada. Vejo países emergentes, como o Brasil, cada vez mais beneficiados por essa maré de criação para usos coletivos. Lembro que o BNegão, artista brasileiro que passou a gravar e divulgar suas canções de forma livre na internet, começou a ter uma carreira internacional a partir disso. Ele passou a ter um mercado de shows que não tinha antes, no mundo inteiro. Antes era um artista que tinha um pequeno nicho de público no underground brasileiro. Com a divulgação aberta de suas músicas na internet passou a ter ouvintes na França, na Alemanha...

 

11_ Falando de política e de sociedade, que debates nacionais e globais mais o interessam neste momento?

Gilberto Gil: Tudo me interessa, tudo que diz respeito à expansão da responsabilidade cidadã, da atuação social dos indivíduos e dos coletivos. Isso vai da política tradicional – governos, casas legislativas, leis e normas – até a discussão das questões de uso da natureza pelo homem, da intervenção do homem na natureza. Ou do uso dos saberes e dos conhecimentos, como podemos insistir numa maior democratização desses usos. Então, a política, a ecologia, a ciência, a tecnologia, o comportamento, está tudo interligado. Até porque não pode haver interesse parcial, não dá para estar interessado em ecologia sem estar interessado em economia, distribuição de renda, democratização de processos decisórios em política. Sou interessado em tudo isso, porque não posso estar interessado em uma dessas coisas apenas.

 

gil em pe12_ Pensando na sua infância, o Gil menino, lá do interior da Bahia (foi criado no pequeno município de Ituaçu), não tinha acesso a essas tecnologias. Mas é curioso ver que você tem um interesse muito grande nesses avanços, e que sua obra sempre refletiu esse interesse... O mundo da máquina e a infância lúdica se cruzam?

Gilberto Gil: A influência das máquinas vem desde lá, da infância. Quando via as revistas sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), aos três, quatro anos, ficava muito interessado naquelas máquinas, nos tanques, nos navios, nos aviões... As novas condensações, as novas configurações do conhecimento técnico me interessavam fortemente. Depois segui com as revistas em quadrinhos, acompanhando o Super-Homem e o Batman, personagens ligados a uma aceleração da tecnologia. Então, desde pequeno sou fascinado pelo diálogo com a máquina, com os processos “maquínicos” que definem usos tecnológicos. O fascínio pelo desmonte das máquinas, que um menino naturalmente tem quando pega um carrinho de brinquedo e tira a roda, o volante... (risos) Saber como aquilo é construído e eventualmente remontar, reconstruir... É o que os meninos dos computadores fazem hoje. O Facebook, o Google, tudo isso é resultado da curiosidade que os jovens têm sobre as engenhocas, da capacidade de remontar, de reutilizar a tecnologia de maneiras que não foram imaginadas originalmente.

 

Criatividade para todos

Criado em 2001 para repensar o conhecimento como um recurso pertencente à coletividade, o Creative Commons transformou-se em sinônimo de liberdade na difusão (e na reutilização) da informação. O CC permite a autores de qualquer tipo de conteúdo (músicos, escritores, cineastas, fotógrafos...) liberarem determinados usos de suas obras por parte da sociedade, através de licenças específicas. É possível, por exemplo, que um compositor use a licença “Atribuição” (que libera os direitos de utilização por qualquer outra pessoa, desde que seja mantido o crédito do autor) para uma de suas canções. Ou que um blogueiro aplique a licença “Uso Não Comercial” (liberando a republicação de trabalhos, desde que seja para fins não lucrativos) a seus textos publicados. Cerca de 200 milhões de instituições, empresas e artistas adotam algum modelo de Creative Commons para distribuir conteúdo – da Casa Branca à rede de TV Al Jazeera.

 

Pela internet, pelo tablet, pelo celular

Gil não fica apenas no discurso quando fala em “abrir” sua obra via web. Em julho deste ano, o artista lançou um aplicativo gratuito para iPhone e iPad. Espécie de versão pocket de seu site oficial, o aplicativo permite ouvir em streaming todas as faixas da discografia de Gil desde o primeiro LP (Louvação, 1967), além de dar acesso a fotos, letras das músicas e vídeos. Na versão iPad desta edição da Petrobras Magazine, o leitor encontrará um link para baixar o app que disponibiliza toda a obra do compositor.

 

Cinco décadas de inovação

Entre discos de estúdio, registros ao vivo e coletâneas, Gilberto Gil contabiliza 58 álbuns lançados desde 1967; o mais recente, Fé na Festa: Ao Vivo, é de 2010. Nessa trajetória, conciliou como poucos a tradição musical popular brasileira (com ritmos como samba, baião e xaxado) e influências da música pop – especialmente o reggae e o rock. Entre as dezenas de clássicos que assinou, vale lembrar que os avanços científicos e tecnológicos são temas recorrentes. Além das já citadas “Pela Internet” e “Banda Larga Cordel”, o baiano abordou esses assuntos em canções como “Alfômega” (1969), “Cérebro Eletrônico” (1969), “Parabolicamará” (1992) e “A Ciência em Si” (1997).

 

 

 

 

Por: Marco Antonio Barbosa e Monique Benati

Fotos: Felipe Varanda

 

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