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Navegar no ar

rios voadores - gerard moss (foto: stefan hess)Os rios voadores – correntes aéreas que transportam vapor de água da Amazônia até o Sul do Brasil – são estudados em projeto pioneiro que une aventura, ciência e educação.

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O timoneiro Gerard Moss aderna a embarcação alguns graus a bombordo. Um leve ajuste de rota e atingimos a corrente principal do rio. É uma bacia de rios amplos: alguns podem ter até 800 quilômetros de largura. O motor (de proa, e não de popa, como se poderia esperar) faz muito barulho, o que dificulta a conversa dentro da nave. Tudo em volta é azul e branco, cores que também adornam nossa nau. Azul do céu e branco das nuvens, uma vez que estamos a cerca de 3 mil metros de altitude. Nosso “barco” é o avião monomotor PT-RXE (Romeo), no qual Moss, nosso “timoneiro”, navega. A “corrente” em questão é um rio voador – um curso de água atmosférico, invisível, que transporta pelos ares umidade e vapor de água a partir da Bacia Amazônica, no Norte do Brasil, para outros pontos do país. E cuja “foz” influencia, de forma decisiva, o clima, as chuvas e a umidade, ao “desaguar” em regiões a milhares de quilômetros.

“Os rios voadores transportam as moléculas de água pelo ar, por meio dos ventos que vêm do Oceano Atlântico, entram na Floresta Amazônica e a contornam. Lá,fazem uma curva, encaminham-se para o Centro-Oeste e para o Sul do Brasil. E, de lá, podem chegar até a Argentina”, explica Pedro Leite da Silva Dias, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) e um dos coordenadores científicos do projeto Rios Voadores. Desde 2007, a ciência – por meio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do laboratório do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP – busca estudar e explicar esse fenômeno unindo forças com a aviação, personificada em Gerard Moss, piloto com duas voltas ao mundo no currículo, idealizador e realizador de diversos projetos ambientais. Moss resume com precisão: “Os rios voadores são imaginários, mas a água que circula por eles é muito real”.

“Navegar” pelos rios voadores a bordo do avião de Moss vem permitindo a metereologistas e estudiosos das mudanças climáticas entenderem como a condensação de água na região amazônica influencia a formação de chuvas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Três quartos da chuva que cai sobre a Amazônia retornam à atmosfera na forma de vapor, originário da evaporação dos rios e da transpiração das árvores. Carregada por ventos alísios, predominantes no verão, essa água evaporada desloca-se para o Sul, formando os rios voadores. Assim que os técnicos do Inpe determinam que as condições são as ideais para seguir o curso de um desses rios “virtuais”, Moss levanta voo, a partir de sua base aérea em Brasília. A viagem pode ser de avião (durante o verão, quando os rios voadores estão mais bem formados) ou de balão (no outono e no inverno, para estudar as massas de ar estacionadas sobre a floresta).

“São campanhas de sete a dez dias, planejadas em função do deslocamento desses rios voadores”, narra Moss. O avião voa numa faixa entre mil e 3 mil metros de altitude. Um filtro suga o ar externo, carregado de umidade. Dentro de tubos de vidro, ele é resfriado até condensar-se, a -78ºC, formando gotas de água em estado líquido. Em solo, nos laboratórios do Cena, em Piracicaba (estado de São Paulo), as amostras trazidas por Moss são revaporizadas e analisadas. “Não conhecíamos nada sobre a composição desse vapor. Correr atrás da massa de ar enquanto ela se move sobre o continente é uma aventura que traz informações muito relevantes”, conta o pesquisador Marcelo Zacharias Moreira, que, no Cena, tenta desvendar o “DNA” do vapor coletado por Moss: de onde vêm aquelas moléculas de água, para onde estão indo, qual a sua composição química. “As amostras servem para comprovar teorias importantes. Uma única árvore de grande porte pode evaporar mil litros de água por dia. Para onde isso vai? Essa água toda pode virar chuva em São Paulo”, conjectura o piloto.

 

rios voadores (fotos: margi moss)

rios voadores - avião (foto: margi moss)

 

Em sua primeira etapa, o projeto empreendeu 12 campanhas aéreas, percorrendo principalmente os estados do Pará, Amazonas e Rondônia, e o bioma do Pantanal, nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Uma única viagem ao longo do “curso” de um rio voador estendeu-se por 3.800 km, de Belém, no estado do Pará, até a capital do estado de São Paulo. Foram coletadas mais de 500 amostras, entre 2007 e 2009.

O professor Enéas Salati, veterano pesquisador do Cena, é autor de 150 trabalhos científicos relativos a questões ambientais, recursos hídricos e impactos no clima por atividades humanas. É também um dos idealizadores do bem-sucedido método de análise da composição dos rios voadores. Segundo ele, a prioridade agora é a segunda fase do projeto, que envolve eventos, palestras e visitas em escolas públicas das cidades de Brasília (Distrito Federal), Chapecó (estado de Santa Catarina), Cuiabá (estado de Mato Grosso), Londrina (estado do Paraná), Ribeirão Preto (estado de São Paulo) e Uberlândia (estado de Minas Gerais). Essas cidades ficam em regiões nas quais o fenômeno formado na região amazônica influencia a quantidade e a qualidade das chuvas. Moss e a equipe do projeto participam de exposições explicativas sobre os rios voadores, além de coordenarem oficinas de formação para professores da rede pública, nas quais esclarecem o fenômeno e transmitem outras noções sobre o clima e as condições hidrográficas e meteorológicas no Brasil, distribuindo também material didático para aulas.

“É importante reunir várias instituições e núcleos de pesquisa, mas também é fundamental atingir a sociedade”, detalha Salati. Para os pesquisadores, a sensibilização das pessoas sobre a existência dos rios voadores pode ajudar na preservação da natureza. Os esforços contra o desmatamento seriam intensificados a partir da consciência de que a derrubada das árvores na Amazônia pode diminuir a quantidade de água evaporada que circula nos rios voadores. A mesma água evaporada capaz de gerar umidade e chuvas em outros locais, influenciando o clima de regiões muito distantes. A prioridade dos pesquisadores agora é tentar entender quanto do vapor transportado pelos rios voadores acaba se transformando em chuva que cai sobre o Sul e o Sudeste do Brasil.

Essa união entre ciência, universidade e aventura desperta, e muito, a curiosidade das crianças. “O que eu não consigo resolver com a tecnologia de hoje, talvez possa ser solucionado no futuro, por alguma criança que está entendendo agora o fenômeno”, diz Salati. Utilizar a educação para incentivar a preservação do meio ambiente também é algo defendido pelo Programa Petrobras Ambiental. “A empresa patrocina o projeto desde o início e acredita que iniciativas como essa contribuem para aproximar assuntos importantes, como a mudança climática, da realidade das pessoas. A ferramenta utilizada é a educação ambiental, atividade inerente a todo projeto patrocinado”, afirma Rosane Aguiar, gerente de Programas Ambientais da Comunicação Institucional da Petrobras.

 

 

rios voadores - precipitacao (foto: margi moss)Sempre em movimento

“A vida é curta. Não dá para ficar parado.” Eis o lema do piloto Gerard Moss, que, ao lado de sua mulher, a queniana Margi, une o gosto pelas viagens a uma declarada paixão pela natureza – e por sua preservação. Nascido na Suíça e radicado no Brasil desde 1982 (depois de passar por Hong Kong, Estados Unidos e Austrália), Moss ficou famoso por completar duas voltas ao mundo pilotando os próprios aviões: um monomotor, em 1989, e um motoplanador, em 2001. Dois anos depois, iniciou o projeto Brasil das Águas, também patrocinado pela Petrobras. Entre outubro de 2003 e dezembro de 2004, percorreu mais de 120 mil km num avião anfíbio, colhendo amostras de água de rios e lagos em todas as regiões do Brasil. Analisado, o material permitiu a identificação de ambientes com águas ainda não contaminadas, informação fundamental para que possam ser preservados. “A água é importante, vem de longe, custa caro… e um dia vai fazer falta”, alerta o aviador.

 

rios voadores - água e clima (foto: margi moss)Água & clima, dupla fundamental

O interesse da Petrobras em projetos como o Rios Voadores faz parte de um plano mais amplo. A mais recente edição do Programa Petrobras Ambiental, que tem justamente como tema “Água e Clima: contribuições para o desenvolvimento sustentável”, apoia projetos da sociedade voltados para o estudo e a preservação de lagos, rios e mares brasileiros e da natureza que depende desses ecossistemas. O investimento da Companhia em iniciativas voluntárias de preservação ambiental é crescente: saltou de R$ 17 milhões, em 2004, para R$ 257,7 milhões no ano passado. Projetos como o Águas do Cerrado (que recupera córregos e rios no interior do estado de Goiás) e o Lagoas Costeiras (que estuda as lagoas do litoral do estado do Rio Grande do Sul) refletem a importância do tema para a Petrobras. “Investimos em iniciativas de todas as regiões que contribuem para a promoção do desenvolvimento sustentável”, conta a gerente de Programas Ambientais, Rosane Aguiar. Conheça mais no site do Programa Petrobras Ambiental.

 

infografico rios voadores (infografico: gabriel gianordoli)

 

Por: Marco Antonio Barbosa

Fotos: Stefan Hess e Margi Moss

Infográfico: Gabriel Gianordoli

 

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